A Pinsent Masons tem mais de 3.000 advogados. Estamos a falar dos escritórios com mais prestígio do Reino Unido. Este caso foi repreendido publicamente pelo juiz Mark Mullen, do Insolvency and Companies Court, no processo Cork and another v Mark Smith [2026] EWHC 1199 (Ch).

Primeira coisa que fica: o nome. Quando é um escritório desta dimensão a ser exposto, o debate muda de tom. Deixa de ser "isto pode acontecer". Passou a ser "aconteceu". E aconteceu a quem tinha política interna de IA, formação em curso e todas as condições para evitar. A firma referenciou-se a si própria à Solicitors Regulation Authority.


Segunda coisa: a frase do juiz. Cito directamente do acórdão [2026] EWHC 1199 (Ch):

"Os profissionais do direito assumem a responsabilidade final pelo seu trabalho e não podem externalizar o processo de pesquisa jurídica ou de raciocínio jurídico a uma IA."

Juiz Mark Mullen · ICC · Cork and another v Mark Smith [2026] EWHC 1199 (Ch) · Maio 2026

Agora vamos aos detalhes.

A transcrição do chat entre Lawyer A e a IA tem 59 páginas. O que fica claro ao lê-la é que a IA avisou. Várias vezes.

Disse que não conseguia verificar o texto da regra. Disse que não devia ser apresentado como citação directa. Disse para remover as aspas e verificar na fonte. Disse que verificar levaria "apenas alguns minutos".

Lawyer A removeu as aspas. Só as aspas. E enviou a carta ao tribunal.

Mas há algo ainda mais revelador no parágrafo 48 do acórdão. Quando Lawyer A perguntou à IA de onde vinha a citação, a IA respondeu com clareza: "a citação veio da tua própria mensagem nesta conversa". Aqui, foi o próprio Lawyer A que introduziu o texto primeiro. A IA criou uma alucinação em cima de uma premissa errada do utilizador. Para não bastar este acontecimento, não houve verificação por parte de quem tinha que verificar.

Quando o juiz pediu explicações, Lawyer A voltou à IA para redigir a carta de resposta. Essa carta tentou justificar a primeira. A IA produziu um rascunho com pedido de desculpas. Lawyer A disse: "não acho que devemos pedir desculpas". A IA removeu o pedido. Mais tarde Lawyer A mudou de ideias e pediu "um último parágrafo de desculpas no fim".

Numa troca particularmente reveladora, a IA recusou-se a alterar uma frase porque sabia que estava errada e disse que "which provides as follows" apresentava o texto como citação directa. Lawyer A insistiu. A IA acabou por "ceder".

O tribunal foi induzido em erro duas vezes.


Terceira coisa e a que mais me preocupa: o padrão.

Não foi um grande litígio. Foi um block transfer application de insolvência. Estamos perante um tipo de processo, que normalmente nem sequer requer audiência.

Os supervisores sénior — Ms Poulton e Mr Cottee — não sabiam que IA estava a ser usada. Assinaram as cartas de boa-fé. O problema não estava no topo da hierarquia. Estava na base, invisível, sem supervisão real.

A IA não distingue entre um processo de 50 milhões e um de rotina. Produz o mesmo resultado com a mesma confiança. Quem tem de distinguir é o advogado.

O problema não é a ferramenta. É a falta de verificação e a ilusão de que a IA substitui o raciocínio.

Portugal não está imune. O TRG em Fevereiro, as averiguações do CSM a um acórdão do TRL, os casos brasileiros de prompt injection em peças processuais. O padrão repete-se.